segunda-feira, novembro 12, 2007

Tropa de elite: tô dentro

Aquele texto que escrevi sobre o Tropa de Elite já rendeu muita coisa...É um privilégio saber que incentivei minha queridíssima amiga Cristina Almeida a escrever essa delícia de texto, que foi publicado ontem no Jornal O Dia:

Tropa de elite: tô dentro

*Cristina Almeida

Nem vou falar da fantástica atuação de Wagner Moura ou das chatices dessas ONGs “cabeça”. Quero me ater à apresentação que o filme faz da existência pasmática de uma polícia que a sociedade civil tanto clama. Uma polícia que resolve. Policiais bem treinados, bem equipados, que têm a coragem de invadir uma favela e banir de verdade grandes traficantes, seus “aviões”, “fogueteiros”, “vapores” e demais integrantes dos temidos comandos dos morros cariocas. Eles próprios tremem com a presença do Bope. Eu sabia lá que existia isso? Traficante com medo de polícia? Que temos uma tropa considerada a mais bem treinada para combate urbano do mundo? Que irlandeses, israelenses, cipriotas e até a Swat (a excelência policial americana) vêm aprender com a gente?
Imagine: temos uma parte da polícia onde não impera a corrupção (que sonho!), que utiliza estratégias inteligentes, que escala os grandes morros de pedra do Rio de Janeiro, que invade as matas, que faz o que for preciso para destronar os líderes da criminalidade carioca. Se der pra pegar vivo, tá bom. Mas matá-los também tá valendo. Até porque, se não mata, morre. E policial do Bope não é forjado para morrer fácil. Em maio passado, morreu um, unzinho só. Antes dele, a tropa só tinha perdido um homem em 2004. Coisa de filme de ficção, acreditaríamos, não fosse a exposição pública do Batalhão de Operações Especiais que Tropa de Elite nos presenteou.
O mais assistido e comentado de todos os filmes da atualidade mexeu com o alterego social. Nos pegamos acreditando na polícia, torcendo para que seus homens ganhem a parada, que deixem corpos no chão se assim for preciso. Porque antes eles do que nós. E não me venham os antropólogos me dizerem que polícia tem só que prender. O Rio está em guerra, gente! E guerra é guerra. A favela Tavares Bastos, na zona sul do Rio, tem uma rotina de paz só pela proximidade à sede do Bope. Com a aprovação popular de Tropa de Elite, já-já o perigoso Complexo do Alemão vai virar um jardim de infância. Em seguida, a Rocinha, o Vidigal, o Morro do Macaco e tantos outros. Depois do filme, centenas de policiais cariocas estão loucos para fazer parte da equipe. Agora é moral no país inteiro.
Os comandantes dos batalhões especiais Brasil a fora negam que usam tortura. É o papel deles. Imagine quantos representantes da Anistia Internacional, dos Direitos Humanos, ganhariam lugar na mídia se eles assumissem a truculência necessária para lidar com bandidos. E é necessária mesmo. Se a bala não entra na cabeça dos bandidos, zanza, zanza, zanza até pegar um civil, que estava em casa tentando descansar, ou chegando do trabalho, da faculdade, ouvindo de longe o costumeiro tiroteio. É! Lá no Rio é assim: barulho de bala é a coisa mais comum do mundo. Eu sou carioca e sempre estou por lá. Conheço histórias que dariam outro triller.
Somos uma sociedade cada vez mais refém da criminalidade. Enquanto os marginais se multiplicam, nós nos trancamos em casa, com grades, cercas elétricas, criando cães matadores e tremendo de medo assim mesmo. Porque eles estão cada dia mais espertos, ousados, bem instruídos, desfazendo com simplicidade cada alarme revolucionário e definitivo recém-colocado no mercado. É aí que Tropa de Elite lava a nossa alma. É muito bom saber que existe quem faça medo a eles também.

*Cristina Almeida é jornalista

E como sou palpiteira mesmo, já respondi com mais uma OPINIÃO:

Que bom que você escreveu o artigo, Cris! A análise das nossas personalidades está mesmo perfeita. Quem não sabe que você é ultra prática e eu uma romântica icorrigível e açucarada? Basta ler um e outro artigo. Mas não analisar o filme em si foi uma opção minha, já que estava mesclada entre minhas opiniões e as suas. E estava doida mesmo para que você colocasse no papel esse seu jeitinho Capitão Nascimento de ser.
Não podemos esquecer que esta não é uma guerra declarada e é muito perigoso difundir essa ideia de estarmos em guerra, pois o mesmo argumento que justifica ataques mais "incisivos" da polícia serve para os traficantes, o que pode abalar seriamente a segurança jurídica das relações. Falar em segurança jurídica, manutenção do estado democrático de direito pode parecer meio fora de moda, mas é o que nos distingue das relações selvagens da Idade Média, por exemplo.
Não pense que não há nada tão ruim que não possa piorar.

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